Pelo menos nós, gaúchos, somos levados desde o berço a desacreditar em argentinos. Talvez pela fronteira próxima (nem irei falar sobre nossos problemas com os catarinas), ou talvez pela invasão às nossas praias em cada verão. A origem dessa peleia, por exato, não sei determinar, mas flertamos por demais com nossos vizinhos hermanos. Já nascemos fluentes em portunhol e, por assim dizer, entoamos cânticos nos estádios a la torcida do Boca Juniors.
Introdução muito impertinente, eu sei. Mas achei válida para justificar a minha agradável surpresa ao ler “Falar Sozinhos“, do escritor argentino Andrés Neuman. Totalmente às cegas na livraria, em busca de algo para preencher aquele vazio literário que os amantes de livros nunca conseguirão preencher, me deparo com esta obra que, sem pensar duas vezes, já foi parar embaixo do meu braço.
Falar Sozinhos” é uma história contada por três vozes. Mario é casado com Elena que por sua vez são pais do menino Lito. Enquanto uma doença acaba aos poucos com a vida de Mario, este tenta criar inesquecíveis memórias para que o filho possa ter boas lembranças do pai. Lito descohece a doença de Mario enquanto a mãe, Elena, se entrega aos livros e a uma paixão proibida.
Mais do que uma doença terminal, o livro fala sobre a natureza por vezes excêntrica das relações que construímos ao longo da vida. Fala sobre inocência e desesperança. Fala sobre amor e traição. Sem definições, o autor procura contar sem julgar. Os capítulos em que Elena conta sua história são recheados de referências literárias, e são os livros o principal porto seguro da mãe que já não pode ter mais tanta certeza de seu papel como esposa.